vinicius lima cresceu em um sítio no norte do paraná entre plantações de algodão e café, entre a mata e seus bichos, antes da invasão do agronegócio. na infância e na adolescência, aprendeu a escutar as plantas e os animais, e a perceber em seu próprio corpo os movimentos da floresta. depois, distraído dessas coisas, foi tragado pela vida urbana e pelo pensamento acadêmico, chegando a completar um doutorado em letras.

certo dia, saindo de casa apressado para lecionar a uma turma de publicidade, uma roseira agarrou suas roupas. ele demorou para se desvencilhar dos espinhos das rosas. mas aos poucos tomou distância da vida nas cidades e nas universidades e se mudou novamente para perto da mata. tornou-se agroflorestor no distrito de guaravera, zona rural de londrina.

agroflorestor, anarquista, poeta, vinícius já publicou seu poemas por conta própria, em livros artesanais, e também em Começa Aqui a Morada do Fogo (madrepérola, 2016), Animais Floridos (anome, 2016) e, há poucos meses, em Sob a Sombra das Primeiras Árvores (medusa, 2021). nesta edição da mataviva, rompendo as cercas que dividem a terra arrasada, contemplamos suas ideias e versos vicejando com a força das raízes libertárias.





mataviva recentemente, você disse que ana primavesi e masanobu fukuoka foram seus dois grandes mestres, inspirações que te influenciaram muito mais do que qualquer literatura. o que esses agricultores dizem que os poetas não te disseram?

vinícius lima A engenheira agrônoma Ana Primavesi foi a maior autoridade em solo tropical que já existiu. O grande ensinamento que ela deixou para mim foi que o solo é vivo e que sem ele o homem não poderia existir. Já o biólogo Masanobu Fukuoka trouxe para meu universo uma postura de artesanato da simplicidade, através daquilo que chamou de Agricultura Natural. Toda filosofia oriental do trabalho “a manivela”, e da “não-ação” que ele empregou no seu trabalho me marcou profundamente. O mais importante foi que ambos os pensadores-agricultores tiraram o foco do humano e ampliaram suas reflexões para todos os seres que habitam o planeta. Acredito que essa lição de humildade foi o que a literatura não me trouxe.



mv entre os kaingang que habitam a terra indígena do apucaraninha, na região de londrina, circula uma canção na qual o pássaro anu (a ỹn) os alerta sobre a iminência de uma guerra. você vive em um sítio agroflorestal chamado anu. sobre o que ele tem te alertado?
vl Quando me mudei para a área rural de Londrina, os anus se aproximaram de mim. É impressionante como eles não se sentem ameaçados com a presença humana e interagem. Às vezes sinto que se comunicam comigo. São de uma inteligência espantosa. Brinco que são “pássaros vegetais” já que são as plantas os seres mais adaptados e evoluídos deste planeta. Assim como as plantas, os anus andam em bando e resolvem problemas coletivamente. Eles têm me ensinado diariamente que será este o futuro do humano. Somente através de uma virada ontológica que tenha como base pequenos coletivos realmente empenhados na manutenção do seu habitat será possível enfrentarmos a ruína que nos espreita.



            



mv o que poesia tem a ver com comida?
vl Sem comida não há poesia. A busca por comida sempre foi o elemento propulsor do ser humano para explorar o mundo natural. Se não fosse a atividade de forrageamento jamais teríamos descoberto a arte e a criação poética. Se formos pensar além da dicotomia natureza e cultura, a atividade de cultivo de alimentos é uma criação poética. Existe uma linguagem se desenvolvendo ali de uma sofisticação sem tamanho.



mv muitos que escrevem sobre a natureza se dedicam a uma poesia pouco verborrágica, econômica nas formas – provavelmente por influência da literatura oriental. seus poemas, no entanto, costumam ser populosos em imagens. qual natureza fala através de seus escritos?


vl Penso que a natureza que fala nos meus textos é um “ser florestal” em movimento contínuo. Acho que a poesia econômica não dá conta da complexidade de sons e ações que existem em 1 m² de floresta. A poesia com influência oriental busca uma perspectiva contemplativa da natureza em que predomina uma relação de pensamento com a paisagem. Minha poesia busca uma relação corporal com as plantas, insetos, animais e outros seres. Talvez por isso a enxurrada de imagens poéticas.





a adaga atravessa a boca da pantera
lucífera ponta de ossos
crava nas costas da gazela
sua malha molhada terra
nutre a pegada da paineira
dedilhando o vento
com dedos de algodão
abelhas fazem mel na cabeça do urso pardo

crânio limpo por formigas famintas
abraço a pedra prenhe de calor
imensa como um ovo alçado ao céu
voo fossilizado
na ave que se devora










mv  se hoje você fosse entrevistar leonardo fróes, que pergunta faria a ele?

vl A sua relação com os elementos naturais e o superpovoamento de eventos que existem na natureza não atrapalham sua produção poética? Você tem medo de que sua poesia desapareça em meio ao turbilhão de plantas e animais que te rodeiam?



mv você já disse que poetas como gary snyder e leonardo fróes trouxeram humor para a sua poesia, que antes tendia a ser mais sisuda. é engraçado viver e conversar com os bichos e as plantas?

vl Poxa. E como é. Os bichos e plantas são seres muito espirituosos. Têm um humor doce. Observar uma gralha ou uma corruíra é como assistir a uma performance de um Harpo Marx. Às vezes me pego com um sorriso no rosto ao ver um galho de abacateiro dando uns “tapas” nas folhas de uma seriguela.




cambotacéu sobre nós
caiu da árvore o sol maduro
todo roído de bem-te-vi
sua coroa saúva sorveu
nuvem se mija toda
de chuva se riofica
minhoca da bunda suja





mv  em sua opinião, quais poetas conseguiram traduzir para os humanos a fala dos não humanos?

vl Gosto muito do trabalho da poeta uruguaia Marosa di Giorgio ︎︎︎ . Ela foi pra mim a que teve mais êxito em traduzir para nós humanos o mundo dos seres não humanos. É impressionante como ela cria ao longo de sua imensa obra um ambiente de intimidade entre os humanos e não-humanos. Não é à toa que a compilação da poesia completa dela recebe o título de Los Papeles Salvajes. É todo um universo povoado de relações interespécies, em que as fronteiras ontológicas desaparecem.


mv entre os socialistas, os anarquistas foram os que afirmaram com mais intensidade outras formas de se relacionar com as plantas e os animais. o anarquismo te levou à ecologia ou o percurso foi no sentido inverso?


vl  Não sei responder com precisão quem veio primeiro. Só posso dizer que no mundo não humano, ou extra-humano como aponta o Viveiros de Castro, o anarquismo é soberano. Dentre todos os princípios do anarquismo, o mais importante pra mim é a cooperação. As plantas, animais e insetos me proporcionam lições diárias de ajuda mútua e solidariedade. E é isso que importa.















EXÍLIOS


quando o vermelho
se dissolver
no silêncio da chuva

quando toda voz
viajar nas asas do gavião
e nossas pegadas se fundirem
com excrementos de búfalos

quando o sol

desenhar com dedos precisos
as curvas do jaguar
e as noites voltarem a ser escuras
iluminadas por galáxias de vaga-lumes

quando os carros
se dissolverem como gelo
o asfalto se decompor
e dentes de leão brotarem em seus orifícios

quando os gramados geométricos
e jardins domesticados

forem invadidos por erva-daninhas
e os homens comerem
o que nasce em seus quintais

quando as escolas
forem fechadas
igrejas e presídios
demolidos
bancos e fábricas
queimados

quando todos os livros

virarem árvores
e cada árvore
um deus selvagem

então poderemos voltar para casa
com os pés pesados
e as roupas cheias de pólen

e borboletas e abelhas
comerão em nossos ombros

e fecundaremos flores

de bosques antigos e obscuros

e seremos doces e serenos
como um gato

e adormeceremos ao relento
protegidos por corujas
molhados de orvalho
suaves como a seiva
que percorre as veias
da araucária
como o sangue

que irriga a musculatura
do cavalo

e finalmente
sairemos às ruas
bípedes
sorriso no rosto
com o vento atravessando os poros
e o fogo
nos estremecendo
por dentro





mv precisamos esperar a demolição de igrejas e presídios e o fogo nos bancos e fábricas para “podermos voltar para casa / com os pés pesados / e as roupas cheias de pólen”?
vl Com certeza não. Penso que é possível e urgente retomarmos nossa casa. Aí podemos demolir todos estes ícones e totens da civilização urbano-industrial. Não é preciso abandonar as cidades e sim reorganizarmos nossa casa para que possamos viver nela, dela e para ela.













mv é possível viver a mata dentro de uma cidade? como?

vl É possível sim. Mas antes precisamos retomar os espaços públicos e replanejar as cidades para que a mata seja predominante. É possível cultivarmos nosso próprio alimento dentro das cidades. Diminuir o uso do automóvel. Penso que as soluções são bastante simples, mas exigem um certo comprometimento do sujeito que habita a cidade.



mv  agora, no meio da pandemia, o ritmo na cidade está diferente. você observou alguma alteração também no ritmo do crescimento das plantas?

vl As plantas seguem crescendo no ritmo delas, alheias ao mundo humano. Melhor pra elas.


mv quais barulhos você escuta enquanto lê esta pergunta?

vl Ouço o riacho que passa no fundo do sítio. Agora uma coruja, agora um cachorro no horizonte. Agora a paineira aqui perto da casa, impaciente com o vento.




mv o que você tem plantado?

vl Muita coisa. Muito pé de fruta, muita mandioca, inhame, taioba e bananeira.



mv  o que você tem colhido?
vl  O Sol.



mv  o que você tem escrito?
vl  No momento nada. Em compensação, tenho lido bastante a obra completa dos quatis



enquanto vejo as acácias
            dançando com o vento e a chuva
como um urso folhudo
shoppings se erguem sobre meus antepassados
feitos de flor e musgo
totens tvs
antes montanhas
contam meus passos
cantados e contidos
mas a fogueira é adolescente
pagã jamais se apaga
e fervilha o sangue
que fulge folhagens






orar à araucária
ao ar
que paira
sobre o
parar
pois tudo flui
de mim em mim pra mim
transe é trânsito
poeira nas solas dos pés
cabeça inacabada





põe o ouvido na terra e preste atenção ao
murmúrio do rio
vozes cruzam suas veias
sabiá samba as folhas coça cala comida
gambá grita dos cães em sua fuga
tem quem percorra quilômetros atrás de si
basta olhar pro chão e tocar sua sombra
basta beber água gelada das montanhas
e sentir os peixes lamberem seus sonhos








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