entre as folhas das plantas, dos livros e dos cadernos, nicolas behr vive, aos 62 anos, no cerrado. behr ficou conhecido em brasília no final dos anos 1970, a partir da maneira livre como escreveu e circulou a sua poesia pelas ruas da cidade. em 1978, pouco tempo depois do seu primeiro livro, Iogurte com Farinha, foi preso, durante a ditadura civil-militar, acusado de obscenidade. proibido de publicar, não hesitou em escrever poemas em telhas, série conhecida como O Que Me Der Na Telha.

apesar da diminuição do ritmo de escrita, nos anos 1980 inventou grupos de militância ecológica fundamentais na capital federal.  na década de 1990 retomou o lançamento de seus poemas e, ao lado de alcina ramalho, criou o viveiro de mudas Pau-Brasília︎︎︎

deste modo, preparando futuras plantas e poemas, o poeta que saiu aos dezesseis anos do mato grosso rumo a brasília (a mudança feita em uma brasília, segundo ele) segue resistindo e experimentando linguagens livres, verbais ou não. como ele mesmo diz a seguir, “antes de falar com as plantas eu as adubo bem e as rego. aí falo. planta não gosta de gente tagarela”. 




mataviva “o flamboyant / da casa da fazenda / enraizou em mim” ︎︎︎ este é o começo de um dos seus poemas. como a pessoa poeta pode se tornar um solo fértil para as plantas?

nicolas behr Se você respira, agradeça às plantas. Tudo muito automatizado no nosso planeta, quase seres autômatos que somos, esquecemos de onde vem o nosso oxigênio. Por isso, se você respira, agradeça às plantas (no fundo elas não precisam de nós. Nós é que precisamos delas. Se num instante as plantas desaparecerem do planeta a humanidade morre em menos de um mês. Se num instante a humanidade desaparecer por completo, que alívio para as plantas).



mv  o que você tem plantado?
nb No sítio sementes de palmeiras... Da semente até você ter o “produto” planta, no mínimo 3 anos. Aí depois de tudo isso a pessoa compra a muda e deixa morrer, por falta de água.


mv o que você tem colhido?
nb Tenho colhido alegrias, momentos de êxtase, ao ver a palmeira que plantei, pequena, dar seus primeiros frutos. É o momento-surpresa, é o momento-quase-orgasmo. É o inesperado, que te desliga deste mundo estressante e te remete a um outro, onde você recarrega as energias. Por isso precisamos tanto das plantas, o contato com o selvagem, com o verde, nem que seja numa samambaia pendurada na sua varanda.




HOW TO SHIT IN A FOREST

que maçante é viver em sociedade

já percebestes? as regrinhas...

o corpo social em movimento,
percebestes?

principalmente de manhã cedo
todo mundo indo pro trabalho

existe algo mais maçante
que o trabalho?

bom mesmo é andar nu pela floresta
comer frutos silvestres
e cagar ali mesmo observando
os decompositores – besouros rola-bosta –
destruírem sua mais fina obra








mv em brasília, no final dos anos 1970, durante a ditadura civil-militar, você foi preso, processado, proibido de publicar. e como resistência escreveu poemas em telhas frescas depois queimadas. como apareceu a ideia de “o que me der na telha”? 


nb Rapaz, me veio uma daquelas leituras sobre a escrita cuneiforme, dos sumérios, que escreviam em argila. Mas olha, escrever em telhas frescas, deixá-las queimar no forno e depois levá-las ao grande público, que doidera. Quebravam no transporte (no ônibus), e aí me lembro... É na juventude que cometemos as maiores e mais lúcidas loucuras.



mv  sobre seus poemas, leonardo fróes comenta que eles surpreendem o olhar desprevenido e são “tão contundentes quanto uma pichação feita às pressas para escapar da polícia”. como seguir surpreendendo, em um momento em que além das polícias, as redes e os algoritmos controlam cada vez mais os olhares?


nb Poesia é resistência, sempre será. O tempo não para, novas mídias, novas linguagens, novas vontades. Mas pra mim ainda “vale o que está escrito”. O livro, de papel, não pode ser deletado. A nuvem evapora, chove, muda de lugar.
O livro é a invenção perfeita. Extensão da nossa memória, como dizia Borges. Os algoritmos são pura ilusão. Seguidor não é leitor, curtida não é leitura.




os três poderes
são um só

o deles






mv  você foi um dos inventores do MOVE (movimento ecológico de brasília). como é a sua relação com as raízes e os movimentos?

nb Na época, início dos anos 80, eramos taxados de loucos, hippies, irresponsáveis. Aí está o Comitê Internacional do Clima pra dizer que não estávamos tão errados assim. Estamos cavando nossa própria sepultura, por isso esse desespero de chegar a Marte e instalar uma colônia humana lá, para nos salvar da extinção.


mv  com sua companheira alcina, você inventou a “pau-brasília”. qual a relação entre a escrita e o dia-a-dia no trabalho com as mudas?

nb O viveiro de plantas é o meu fio-terra. E o poeta precisa de um fio-terra, senão pira, enlouquece. Por isso, aconselho sempre que vejo um poeta que começa a viver radicalmente em “estado de poesia” que passe na lotérica pra jogar na megasena, passe no banco, veja o estrato e converse com o gerente. Passar no posto de gasolina e calibrar o pneu do carro. Tudo que aterra o poeta é bom. Chega de poeta ficar se matando.



a árvore cresce
sobre o chão da página

a palavra se fixa na terra

árvore e palavra:
ambas enraizadas em mim










enfim, era preciso saber
quanto cimento será gasto
numa ponte por onde ninguém
passará de mãos dadas





mv “as atividades manuais são extremamente não poluentes.” você escreve à mão?


nb  Escrevo à mão inicialmente, em cadernos velhos. Aí passo pro computador e imprimo e reescrevo. Ficamos 5 mil anos na escrita manual, depois passamos para o impresso e agora estamos na era digital, do cristal líquido. Eu sou testemunha dessa passagem do impresso pro digital, assim como a geração do Gutenberg testemunhou a passagem do manuscrito para o impresso. Estamos tão envolvidos nessa revolução digital que nem percebemos a radicalidade dessa passagem.





mv alguns cientistas têm chamado de www (wood wide web) a conversa entre as raízes das árvores por meio dos fungos. mas, antes da ciência, alguns artistas e poetas já sabiam dessa rede. você fala com as plantas?
nb Antes de falar com as plantas eu as adubo bem e as rego. Aí falo. Planta não gosta de gente tagarela, gosta de gente que cuida delas. Porque as plantas conversam com a gente também, numa linguagem não verbal. Folhas muito amareladas, falta de nitrogênio. As pontas ficam pretas, secando. Excesso de água. As folhas enrugam, se retorcem, falta de água.







com ou sem elogio
a árvore cresce

o poeta não





mv porquê as palavras não falam?

nb O poeta ensina a palavra a falar. Fala, palavra!


mv poeta e pesquisador de folhas, em todos os sentidos, como você pensa o livro hoje?

nb O livro tem um belo futuro. Veja as feiras do livro, como as pessoas precisam do objeto livro, sensorial, palpável. O ebook taí, o tempo não para. Mas o livro não precisa de um programa, de um software, pilha, tomada... O livro precisa apenas de alguém que o leia.



mv o que você tem escrito?

nb Tenho me aventurado na prosa, esses dias. Tentando fazer as pazes com a minha prosa. Porque o escritor é sempre o seu primeiro leitor. Mas como disse, estou apenas me aventurando, tentando encontrar um estilo que me satisfaça e que seja defensável. No fundo, acho que a gente escreve do jeito que gostaria de ler. Soa egocêntrico? Talvez. Mas a minha praia é mesmo a poesia, onde eu melhor me defendo.     



uma paisagem sem árvores
é como um mar sem cavalos

flores caem
e ocupam o chão da manhã

algumas árvores
são imperceptíveis a olho nu

arrancar este poema
enraizado no livro

1 kg de sementes contém
2 kg de esperança

altura de 20 ipês submersos

rios de palavras
correm nas entrelinhas

pra que monumento
se na praça
já existem árvores?







olhos cerrados
abertos
pra ver
certos
cerrados
certos
e certos
desertos
errados
(o deserto chora areia)



























































nem tudo
que é torto
é errado

veja as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado