natalia barros faz poesia desde os anos 1980, cantando e performando com o grupo luni. depois, nos anos 1990, seguiu experimentando linguagens, compondo letras para canções e também inventando jardins como paisagista. nessa mesma década de 90 deixou a cidade de são paulo e passou a viver em uma chácara em cotia, onde acompanhou o crescimento de duas filhas. após anos de poesia em diversos formatos, do teatro à dança e ao circo, lançou os livros Caligrafias (2012) e Nuvens Ornamentais (2016).

na conversa com a mataviva, além de contar os planos para uma terceira publicação, a poeta descreve algumas das maravilhas com as quais tem se deparado. e apresenta os ritmos que observa na mata, os sons e os silêncios, as relações entre as formigas e as rosas, os cogumelos e as árvores.

feito no haikai de matsuo bashô, “vai em viagem / a contemplar as flores / no travesseiro”, ela comenta que plantou algumas paineiras há vinte anos e que agora, com as painas, fará travesseiros.

a vocês leitores, com as palavras da poeta, nas folhas a seguir, uma boa viagem.

mataviva você gosta daquele poema do lawrence ferlinghetti em que ele comenta sobre esperar o renascimento do maravilhoso︎︎︎. apesar de tudo o que tem pesado, você tem tido contato com maravilhas?

natalia barros Gosto muito desse poema, é um daqueles que a gente fica convivendo por muito tempo. Uma vez eu li um pequeno haicai de um mestre japonês que dizia algo sobre este Mundo – com suas maravilhas e seus sofrimentos – ser o Mundo do Lótus Dourado. Concordo completamente com isso. Apesar de tudo e com tudo, com o peso e a graça, tenho tido contato com muitas maravilhas. Talvez uma das belezas seja, inclusive, que as “maravilhas” estão dentro dos acontecimentos do mundo. Ontem mesmo eu estava caminhando nas pedras na beira do mar e vi uma formação de mica incrustada na rocha. A palavra “mica” deriva do latim micare, e quer dizer brilho. Tudo isso abre a porta para a maravilha que é estar nesse planeta louco, estranho, caótico e que, ao mesmo tempo, reluz!

Esse tema, o das maravilhas, me acompanha há dois anos porque acabei de fazer, com a Cozinha Performática, um espetáculo chamado “O LIVRO DAS MARAVILHAS”, sobre a viagem do Marco Polo no século XIII. As maravilhas que esse viajante conta coexistem com um mundo de guerra, doença, invasões, cruzadas e etc. Não era também um momento fácil, mas os encantamentos estão sempre incrustados nessa rocha em transformação que chamamos de Terra.



mv como tem sido, no último ano, a relação com os jardins que você cuida e inventa?
nb Assim que começou a pandemia e o isolamento, resolvi ficar em casa, num jardim que cultivo há mais de 20 anos. Estar em contato com a(s) natureza(s), sem dúvida, me ajuda a olhar com mais calma para esse momento difícil que passamos. Vejo todos os dias o jardim me mostrando seu movimento constante. Os pássaros, as cigarras, a abertura das flores, a horta, os quatis, as formigas. Acho que uma das grandes questões hoje é a imensa dissociação homem/natureza. Cuidar de um jardim é muito prazeroso porque, ao mesmo tempo, sou cuidada por ele. Fiz dois jardins durante a pandemia para outras pessoas, e essa é uma das coisas que mais me traz alegria: criar espaços vivos.



mv uma rosa é uma rosa é uma rosa?
nb Essa frase é maravilhosa, “encanto extremo”. Gertrude Stein disse inclusive “escutem aqui! / eu não sou nenhuma idiota / eu sei muito bem q na vida cotidiana ninguém sai por aí dizendo ‘… é uma… é uma… é uma…’ / mas eu penso q nessa linha a rosa está vermelha/pela primeira vez / na poesia inglesa / em cem anos”. Acho que esse é o ponto: a potência de criar. Uma rosa é uma rosa e, ao mesmo tempo, a rosa nunca se esgota num único sentido. A rosa é um emblema e uma flor. Em casa estamos sempre nos procurando, eu e as rosas, porque no meio da mata atlântica, cultivar rosas é aprender a dividi-las com as formigas. As formigas adoram as folhas das rosas! As rosas são exóticas a essa mata. São espécies bárbaras. Mas consigo alguns botões rebeldes que se infiltram na mata e perfumam a casa.




mv como você relaciona o trabalho com a poesia e as plantas e as flores?
nb Estão completamente relacionados, porque plantar e conviver com a natureza é uma maneira de pensar o mundo, ou de estar nele. É uma via dupla, plantar me ajuda a escrever e estar em contato com a poesia me ajuda a olhar para o jardim. A poesia é a mesma em ambos os casos. A linguagem escrita é uma tentativa de ampliação, de registro e, muitas vezes, de reação ao estado que essa atmosfera me causa. Estados de êxtase, inclusive. É deste lugar que olho para o que acontece também na política, na desordem econômica e nos inúmeros problemas que têm nos afetado. Um lugar que me possibilita um recuo e uma vitalidade para tentar produzir algo que possa achar uma brecha de luz, como um fóton que está há bilhões de anos no núcleo solar e que escapa, por uma fresta, e em 8 minutos está aqui, batendo na nossa cara.



mv o que você tem plantado?

nb Tenho plantado a minha horta (rúcula, alface, batata, feijões e vagens), muitas especiarias (coentro, alecrim, manjericão, erva doce), arbustos com perfume (adoro perfumes) e feito inúmeras mudas de árvores que vou dar de presente pois não cabem mais no meu terreno, rs. Acho que a pandemia acentuou o meu interesse por plantas comestíveis. Fiquei plantando tudo o que eu via pela frente logo no começo de 2020. Acho que foi uma maneira que encontrei de reagir.



mv o que você tem colhido?

nb Colho verduras, temperos, pimentas, ervas, feijões, frutas (mexerica, laranja, manga, pêssego), flores variadas para vasos e banhos. Este ano pretendo colher painas para fazer travesseiros. A paineira que plantei há uns 20 anos está imensa e, esses dias, pude observar que, de longe, caminhando uns quilômetros na estrada de terra, dá para saber onde é meu quarto pelas flores rosas que ela tem. Me sinto protegida por ela.



CHOROSIA SPECIOSA


dia de sol na montanha

as paineiras parecem mortas
não importa – preparam

a festa – certas

da vinda das painas





mv o que você tem escrito?

nb Estou escrevendo meu terceiro livro, na verdade reorganizando o que escrevi nos últimos 3 anos. Os poemas caminharam para uma prosa poética, entre a filosofia e a botânica. Pretendo lançar no segundo semestre. São quase anti-poemas, no sentido formal.



mv você experimentou a poesia, para alem do livro, com bandas punk, jazz, eletrônicas. como se dá a combinação desses sons mais urbanos (digamos assim) com os que você convive mais afastada da cidade?

nb Estive desde cedo muito ligada à cidade. Por opção me mudei de Santos (onde nasci) para São Paulo, que é uma experiência brutal de vida urbana, mas foi onde pude encontrar amigos e artistas que me inspiram desde sempre. A cena e atividade cultural efervescente da cidade foram fundamentais para que eu pudesse investigar diversos campos artísticos. Me interessa a mestiçagem, a mistura. Trabalhei com teatro, dança, música, performance, TV, essa variedade me estimula.

Comecei a escrever compondo letras para a banda que eu participava (LUNI). Minha escrita é muito musical, ritmada, talvez por esse exercício da canção.

A combinação dos sons eletrônicos, jazzísticos, com o ambiente onde vivo é quase por contraste. Sou meio discípula do Cage e acho que, de alguma maneira, tudo é música. Em casa, muitas vezes não escuto nenhum tipo de música, para ouvir o som da mata. Tem mais silêncio numa composição (entre os sons) do que na floresta, onde o silêncio é sempre permeado de ruídos, cantos de pássaros, chuva, estalar de sementes, etc.

Tive excelentes parceiros na música. O produtor iugoslavo, Suba, com quem pude experimentar a música eletrônica com a palavra ︎︎︎, e o Benjamim Taubkin, com quem tenho um projeto de improviso de poema e música (Landscapes), só para citar dois artistas que tive o prazer de trabalhar. Talvez com quem fazer as alianças me importe mais do que para que, ou qual estilo ou em que formato.



mv quando e como você decidiu morar mais perto do mato?
nb Faz 25 anos que moro numa chácara a 40km do ponto zero de SP (Praça da Sé). Por um lado, é muito perto! Mas é um lugar totalmente diferente da cidade. Quando eu fiquei grávida da minha primeira filha (tenho duas), resolvi mudar pro mato, para viver com a pessoa que eu amava, e que já morava no sítio. Gostei da ideia de ser mãe no meio da natureza, desacelerar o ritmo. E também diminuir custos, para que eu pudesse trabalhar menos e me dedicar às minhas filhas. Quando me mudei, chamava terra de areia (talvez numa referência à praia santista, rs), não tinha nenhum conhecimento da “vida no campo”, mas acho que a convivência desde cedo com o mar me fez entender algo sobre a natureza, que de alguma maneira foi crescendo em mim. Tive duas filhas num espaço curto de tempo, e ficar com dois bebês no meio do jardim, reparando no que acontecia à nossa volta, me fez querer estudar sobre plantas e botânica. Acho que eu tinha muito tempo de observação nessa época onde a palavra ainda não era dita por elas.



NATURAL


Hoje vi uma cobra tomando sol, estirada na estrada.
Eu estava no carro, direção na mão, era fácil atropelá-la,
mas não.
Fui buscar-criança-na-escola.
No caminho, mães, meninos, mochilas, bagunça,
conversas de portão, tudo em ordem.
Ao voltar, vejo, no jardim, minha cachorra comendo
um coelho, momentos antes de ele se tornar um animal
desfigurado, irreconhecível.
Enquanto isso, a gata descansava de caçar insetos.
Entro em casa para coar um café.
Bebo, fora de hora, devagar.




mv um dia ouvimos você dizer que lançava cascas e sementes pela janela. para nós tem sido um gesto de liberdade (estamos aqui na serra da mantiqueira) lançar as cascas e sementes (logo elas são comidas por passarinhos e galinhas e se misturam com a terra). o que no ambiente urbano é lixo, aqui se transforma. qual a relação da poesia com o lixo?
nb Pois é, faço compostagem há anos, que é uma maneira de devolver pra terra o que é dela. A primeira vez que vi que cascas, folhas, restos de vegetais e frutas se transformam na composteira, numa terra preta e rica, me pareceu um milagre, uma mágica! Uso essa terra peneirada e cheirosa nos canteiros e na horta.

Tenho a impressão de que não sabermos como resolver nosso próprio lixo diz muito sobre a sociedade de consumo que escolhemos. A conta não fecha!

A poesia parece mais com esse lixo que se decompõe do que com o lixo plástico, químico, cheio de resíduos, que não conseguimos descartar sem gerar toxinas… A poesia de alguma maneira é de-composição, transformação de matéria viva em matéria linguagem. E sim, atirar cascas de banana, de mexerica, pela janela me dá uma alegria. É bom saber que corpos vegetais e húmus são na verdade a mesma coisa em estágios diferentes.



mv em uma postagem recente você comentou sobre a entrada do outono e a sua experiência, desde o início da pandemia, com os ritmos de cada estação. em uma entrevista, o coreógrafo steve paxton perguntou: “qual a velocidade do ser humano?”. desde 2020 estamos vivendo (quem conseguiu) um outro ritmo dentro de casa, e ao mesmo tempo dentro do computador. como os jardins e o ritmo das flores transformam o nosso corpo?

nb O jardim, os acontecimentos, as frutas, as flores têm o mesmo ritmo que o corpo, ou seja, muitos ritmos! No jardim os tempos são simultâneos, tem precipitações rápidas, cogumelos que brotam quase instantâneos, larvas que vivem embaixo da terra por décadas, ventos que carregam nuvens lentamente. O computador parece mais mental, num ritmo cerebral, muitas vezes acelerado e quase monótono. O corpo se diverte e se reconhece quando fica exposto a outros corpos, com múltiplas velocidades, acelerações, pausas e dinâmicas.

    Na mata o corpo dança.



RELATIVO


o tempo que demora

a flor do galho

a

cair

pode coincidir

de uma nova

estrela

luz

ir




mv há diferença entre ritmo e passagem do tempo?
nb Acho que ritmo em geral é mais regular, penso numa linha musical por exemplo, com suas notas e durações pré-estabelecidas. E a passagem de tempo me parece mais uma ideia de quanto podemos nos afetar pela duração de uma coisa. Como é misterioso que algumas coisas permaneçam e outras nos escapem! Acho que são intensidades subjetivas que nos fazem prestar atenção nas passagens das horas, das estações, do ano… Algumas coisas se abrem como janelas nessa passagem, e nos despertam: uma diferença de luz no dia, por exemplo, uma revoada de maritacas ou a abertura das íris azuis e brancas pela manhã.

Parece que existe um ritmo permanente, como o da rotação da Terra, mas, ao mesmo tempo, se um sapo pula do lago nos espanta no mesmo instante e, por nos remeter a Bashô, nos espanta há séculos também, simultaneamente.


mv ferlinghetti, ele novamente, fala dos “piqueniques anarquistas” em seu poema “autobiografia” como algo responsável por sua formação poética︎︎︎ . você acredita que depois da covid os espaços abertos serão ocupados de modo mais anárquico e com poesia?

nb Acredito que os espaços abertos devem ser ocupados anarquicamente, sim!

Que devemos procurar criar espaços baldios, espaços não catalogados, fora do google maps.

Criar espaços é uma capacidade poética e da paisagem. O paisagismo trata na verdade da criação de espaços, inclusive de espaços vazios.

Acho que devemos provocar esses novos territórios – não ocupados. Caminhar ao léu em grupos e amar a errância dos passos e das palavras.



JÁ EXPERIMENTOU PLANTAR TOMATE?


Tentei várias vezes. No canteiro da horta ficam lindos a princípio,
mas é só dar as costas que eles vão se dispersando, invadindo
o pomar, escondidos na terra adubada e nos bicos dos passarinhos.
Quando vejo, estão misturados, felizes, no vaso de cactos,
no pergolado das roseiras ou no canteiro das helicônias.
Detestam ficar enfileirados, no lugar previsto.
São deliciosamente anárquicos. Agem em grupo e apesar
da frágil aparência, são bastante perigosos. Muita gente gosta
de se manifestar jogando tomates, eu prefiro tê-los e comê-los.

Poesia também é assim.




mv wood wide web. assim pesquisadores têm chamado a maneira como as árvores trocam informações subterrâneas por meio de raízes e fungos. a poesia pode ser também uma maneira de ouvir plantas, bichos, insetos? e de falar também? como conversar com plantas e flores?
nb Primeiro ouvir muito, ouvir bastante, criar silêncios, e só depois falar, pode ser um bom começo pra lembrar de como é essa língua vegetal, animal e, arrisco mesmo a dizer: mineral. Ouvir as rochas até o magma. Ouvir sem palavras do eu mas ouvir o entre-ser. Quanto aos fungos que passam informações entre as árvores na floresta, são tão fantásticos! Nos lembram que tudo está ligado e que a Terra pode ser mesmo vista como o corpo uno, o corpo Gaia. Isso é poesia, né? Ou seria melhor dizer, isso é uma maravilha!