cercado de amigos de longa data (“ouço esses poetas cantando como companheiros no bar”︎︎︎), leonardo fróes vive em secretário, região serrana do estado do rio de janeiro. ao lado de sua companheira, a fotógrafa regina d’olne, mudou-se para o sítio no início da década de 1970. naquele momento, em meio às violências da ditadura civil militar, largou um emprego considerado promissor em uma editora para dedicar-se à lida com a terra. em secretário, ao ar livre, cresceram filhos, plantas, poemas, traduções.

observando os bichos e as nuvens por entre o verde da mata, “o rio do tempo embranqueceu seus cabelos”. agora, em 2021, fróes comemorou 80 anos. mesmo à distancia, em uma das festas pelo seu nascimento, brindamos à sua existência︎︎︎. no caso do poeta, uma existência vivida como um poema.

a breve conversa a seguir é mais sobre a vida e o pensamento de fróes no presente, e menos sobre as razões que o levaram a abandonar a “comédia de erros da cidade︎︎︎”. até porque, a essa questão, o poeta já nos respondeu:






mataviva dizem que hokusai, aos 73 anos, escreveu: “aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza, dos animais, plantas, pássaros, peixes, insetos.  quando estiver com 80 anos de idade terei realizado mais e mais progressos”. como foi a sua passagem para os 80?
leonardo fróes Foi linda. Recebi tanto carinho de tanta gente mais nova que me senti florescendo, ramificando-me através dos leitores que encontram algo em meus poemas que lhes serve de alimento.



mv em entrevista para a revista 451, você disse que muitos dos poemas publicados aconteceram em meio às caminhadas pela mata. você é próximo de uma perspectiva mais oriental da poesia, tão diferente da praticada no ocidente. como você vê a relação entre poesia e autoria, a poesia e o ego?

lf Queira ou não queira, sou do Extremo Ocidente. Mas bebi tudo o que pude em fontes do Extremo Oriente. Equilibrar-se entre as metades do mundo é, ou tem sido para mim, um caminho com múltiplos sentidos. A poesia, entre muitas outras coisas, talvez seja uma prática de despersonalização. O bom mesmo seria se tornar invisível. Sendo isso impossível, já é uma terapia notável não se confundir com as máscaras.




AO SE ABSTER DE ENTRAR NA GOELA DO PRÓXIMO


a única coisa que eu sinto que mudou foi a minha voz:
eu agora falo muito mais baixo.
Não procuro impor meu ponto de vista
prefiro observar os botões do interlocutor
e, se possível, acompanhar o deslizar envolvente
das emoções que se energizam no meu
equipamento; acho que eu sondo mais o próximo
do que antes, quando fazia questão de o granjear primeiro
em vez de deixar que ele venha
quando quer ou não. Sinto que o meu trato mudou
na mão que aperto com distância e compaixão bem maior.
Parece às vezes que eu não faço mais tanta
questão de ser gostado e jantado
pelo olhar do outro.





mv ao mesmo tempo em que incorporou certo pensamento oriental, você traduziu alguns dos beats. entre essa geração de escritores (acho que em especial para gary snyder), há uma constante preocupação em associar poesia e ecologia. como a ecologia tornou-se uma questão importante em sua existência?
lf Não traduzi Gary Snyder, mas poemas de outros beats, como Ferlinghetti e Allen Ginsberg. O que se tornou importante em minha existência foi viver na Natureza, não propriamente a ecologia. Ou seja: não sou um ecólogo nem um ecologista, sou apenas um literato da roça.



mv wood wide web. assim pesquisadores têm chamado a maneira como as árvores trocam informações subterrâneas por meio de raízes e fungos. a poesia pode ser também uma maneira de ouvir plantas, bichos, insetos?
lf Sem dúvida, e não só de ouvir, mas também de falar.




DERIVAÇÃO DE WANG-WEI (China, 701–761)


Gosto de andar assim sozinho ao relento.
É muito bom ter consciência de si.
Quando o rio corta o meu caminho,
parto e contemplo calmamente a neblina que sobe.
De vez em quando encontro uma criatura da mata.
Rimos e conversamos um pouco,
Nem dá vontade de voltar para casa.





 
mv o que você tem plantado?
lf O mais recente, cerca de um mês atrás, foram dois pés de sapoti que criei a partir de sementes. Antes, plantei mais um limoeiro e mais três mudas de tangerina, no lugar de outras cujo ciclo de vida terminou.


mv o que você tem colhido?
lf Muita banana, muita manga, muito abacate. E muitas frutinhas deliciosas, como pitanga, amora, siriguela, cabeludinha, jabuticaba.


 
mv como imagina a poesia no planeta que está por vir?
lf Como uma ferramenta de trabalho.


mv estamos aqui na serra da mantiqueira, no chalé bashô, nome afetivo que batizamos nossa casa/sede da É selo de língua longe da cidade. bashô foi um poeta andarilho e gostava de andar com seus amigos, registrando muitas vezes os haikais de suas companhias em seu próprio diário. como você relaciona caminhada e amizades?
lf Uma coisa tem tudo a ver com a outra. Fiz inúmeras caminhadas em grupo, e nesse caso o grupo é que se torna um organismo de múltiplos pés, sobrepondo-se às individualidades como uma centopeia de humanos.



A FOGUEIRA DOS AMIGOS


Tantos anos depois, velhos amigos
celebram, ao redor da fogueira, o reencontro,
conversando como sempre. Rindo um pouco
de tudo, mas com espaço para todos.
Todas as opiniões convergindo
para o ponto unificador de harmonia
que se cristalizou entre eles.
Nem parece que estão passando horas,
nem que o rio do tempo embranqueceu seus cabelos.
Não parece haver separação nem partes
nem vontades opostas
no bailado dos seus gestos solícitos.
É a fumaça rendilhada nos corpos
que delineia as atitudes comuns,
todas enlaçadas formando a mesma figura,
expressiva e compacta, de sombra e luz.
A alegria da simpatia que os irmana
é uma oferenda à alma do universo.
O ato de estar neste conjunto
em sintonia com a pureza dos recortes
é a glória da espécie.




PROXIMIDADE


É madrugada e os braços da neblina,
com seus longos fiapos, me contornam.
Sinto-lhe os toques de carícia quando
a neblina se solidifica em meus ombros.
Ela é o real que me estreita em seus domínios
e o real que liberta.
Sinto-lhe as mãos, o rosto, as coxas
a roçar em meu sexo.
Sinto sua boca refrescando a minha.