uma corrente de água quente sob um lago congelado. uma rápida conversa com gary lawless é como um breve mas intenso fluxo, jato veloz que movimenta atmosferas estagnadas. na gelada costa nordeste dos estados unidos, em uma fazenda no estado do maine, ele vive ao lado de sua companheira beth leonard. uma vida de poesia e natureza que se desencadeou quando, ao terminar um ciclo de estudos, lawless decidiu pegar carona até a califórnia para passar um ano como aprendiz de seu poeta favorito: gary snyder. foi na companhia de seu amigo snyder, no início da década de 70, que lawless encontrou e se deixou afetar por poetas como lawrence ferlinghetti, allen ginsberg, nanao sakaki, além de etnobotânicos, militantes biorregionalistas, xamãs nativo-americanos, budistas e toda sorte de experimentadores contraculturais.

de volta ao maine, com beth leonard, abriu a editora blackberry books press e a livraria gulf of maine books. os dois passaram a viver na fazenda que antes pertencia aos escritores henry e elizabeth benston, às margens do lago damariscotta.

lawless já lançou mais de 20 livros de poemas. nesta mataviva, ele conta um pouco sobre a paisagem em que cultiva seus recém-completos 70 anos de idade, e tem seus poemas – canções que migram como pássaros – vertidos pela primeira vez para o português.






mataviva os rios estão em constante movimento. até mesmo as pedras estão sempre se movendo, como você disse em uma entrevista recente. a poesia e a linguagem também são forças em movimento? elas ignoram fronteiras?

gary lawless eu tenho uma definição ampla a respeito da linguagem, já que a entendo como as formas com as quais as coisas se comunicam – não só a linguagem humana, falada – mas a linguagem química das plantas – a linguagem do movimento, a linguagem dos corpos se movendo, a linguagem dos olhos e do coração, a linguagem falada por outras espécies.

as línguas humanas evoluem, as línguas indígenas desaparecem e com elas também desaparecem muitas  informações sobre viver na terra – as culturas dominantes substituem as línguas locais – conforme as espécies vão se extinguindo nós perdemos a oportunidade de entender e aprender com suas línguas (qual é a língua de uma planta que chama um polinizador?) 

sim, a linguagem se move, flui, é bloqueada, escapa pelos subterrâneos, reaparece – as fronteiras são os limites do que entendemos – muitas pessoas na região onde você está não irão entender meus poemas se eles só existirem em inglês, da mesma forma como eu não vou entender poemas em português, em espanhol, em línguas indígenas da amazônia, etc – e essas são apenas as linguagens humanas – e se pudéssemos entender as canções das baleias, dos pássaros, e se pudéssemos entender as formas com que as árvores se comunicam sob a superfície da terra, ou o que os micróbios que vivem conosco estão comunicando?

os poemas, as línguas e as narrativas vivem através do tempo, através da história – nós ainda conservamos sabedorias e narrativas em nossas línguas que vieram de muito tempo atrás, mesmo que hoje elas sejam apenas resquícios ou pedacinhos – pinturas nas paredes das cavernas, pedaços de poemas de safo encontrados em tecidos, são como a sabedoria, os sentimentos, ideias, emoções que esperamos passar adiante em um poema, canção, conto, pintura, dança, etc – nós nos movemos através do tempo, nós nos movemos como água, nossas vidas fluem – e agora é claro que com os computadores nós podemos cantar nossos poemas uns aos outros através de longas distâncias, fazer amigos em novas culturas, novas línguas, aprender uns com os outros, e seguir adiante – eu acredito que todo o universo está constantemente falando, e que a comunicação é uma história longa, complexa e bonita – nós vivemos nela, sem escutar e entender quase nada – mas alguns poetas, artistas, músicos, dançarinos… eles estão escutando, tentando escutar, e compartilhando o que entendem – o que os seus corações escutam –


Quando os animais vierem até nós,
            pedindo ajuda
            saberemos o que estão dizendo?

Quando as plantas falarem conosco,
            em sua delicada e bela linguagem
            saberemos como respondê-las?

Quando a própria terra
            cantar para nós em sonhos
            saberemos acordar, e agir?







mv você mora no estado do maine, em uma fazenda no município de nobleboro, mas é dono de uma livraria em brunswick, que fica há cerca de 55 quilômetros de distância. você viaja diariamente por esse trecho? o que você observa e escuta pelo caminho?

gl eu vivo na fazenda e viajo 35 milhas até a cidade onde minha esposa beth e eu temos uma livraria há 41 anos. nós vivemos no litoral do maine, na costa nordeste dos estados unidos – nós cruzamos dois rios de tamanho razoável e dois menores até chegar à loja. às vezes vemos o oceano. há pássaros maravilhosos, especialmente perto da água. nós passamos por atalhos onde as camadas das rochas expostas nos contam a história geológica desta região. podemos ver como as geleiras esculpiram os lugares onde vivemos hoje.

neste momento muitas árvores e flores estão desabrochando – há muitos pássaros, alguns voltando de viagens migratórias, e as abelhas circulam pelas flores. nós vivemos em um lago onde muitos milhares de peixes – alosas cinzentas – chegam nadando do oceano durante o mês de maio – nossa cidade gastou um milhão de dólares para criar uma “escada de peixes” para que os peixes migratórios possam nadar do oceano até o lago, com pontos de descanso pelo caminho e com redes cobrindo essas piscinas de descanso para que as águias, gaivotas e águias-pescadoras não peguem os peixes. parece uma cerimônia ancestral, quando os peixes retornam.



mv o que você tem plantado?
gl aqui é o começo da primavera. nós vivemos em uma velha fazenda, mas somos livreiros – então na verdade apenas plantamos para nós mesmos e para as criaturas que nos cercam. na última primavera plantamos alho. agora vamos começar a plantar sementes em nossa horta de vegetais e em nossa horta de ervas. nós temos 17 macieiras (8 variedades - maçã ancestral/heirloom), além de pêssegos, peras, mirtilos, amoras, framboesas, sabugueiros (elderberries) – em breve vou plantar mais mudas de sabugueiro, alguns castanheiros americanos, e dois marmeleiros. nos últimos dias plantei feijões, ervilhas, abobrinhas, abóbora e couve kale.
além disso, tenho plantado plantas nativas que são usadas pelas abelhas, os pássaros, as borboletas – plantas que elas procuram por aqui – asclépia, asters, e tenho mantido os pastos abertos para os amigos voadores que querem usar as plantas que crescem por lá. 







PLANTANDO PARA ABELHAS E BORBOLETAS

o ar estava aqui
antes de nós
a água, a pedra,
o inseto sem nome
as tribos nômades
da terra e do céu
todo dia eu
abençoo a aster
abençoo a asclépia
abençoo o solidago
canto para as abelhas
as borboletas-monarca as
canções nascentes dos pássaros
todo dia uma elegia
uma canção fúnebre
o coração grita de
amor e perda
luto e alegria
os pássaros voando atravessam
o coração, subindo.





mv o que você tem colhido?

gl como é primavera, não há muito para colher – a não ser pelo fato de que acabamos de instalar um sistema de energia solar, então agora nossa fazenda consegue energia colhendo o sol. além disso, estou cortando algumas árvores mortas para fazer lenha para os fogões. mas é tempo de novos começos –



BOAS NOTÍCIAS

Estradas desaparecem, e as renas perambulam.
O castor enjoa daquilo, alcança
o lado de cima, através do gelo,
agarra os pés do caçador e
o arrasta para baixo.
Lobos voltam naturalmente,
circulam o Palácio do Governo,
uivam para os jornalistas esportivos e
mijam nos quadriciclos.
Árvores crescem por toda a parte.
As máquinas param,
e o ar está cheio de cantos de pássaros.





Mais do que possuir
é entrar no espírito
o mundo todo aberto,
animais migram por mim,
cruzam o rio, voam
para casa.




PROCURANDO POR RIOS

Procurando por rios. As rochas estão cheias de
luz. Água clara. Ele esfregou as folhas
entre suas mãos, voou sobre as árvores.
Eu imitei, agradeci. Isto no Picadilly Head.
Onde as estradas terminam. Folhas verdes em um galho
esguio. A missa, ainda em francês. Ovelhas na estrada,
de novo. Um jardim cheio de ossos. Quantos cachorros. Quantas
pegadas, na neve.
Brilho da lua, escamas de peixe, diamantes de gelo. Levantando
meus braços no oceano, a água, caindo ao meu redor,
se soltando das redes e linhas, brilhando enquanto cai.
Minhas mãos para o céu, a linha nas profundezas.
Eu sou o vento que sopra sobre o mar.
Eu sou a onda do mar.
Muitas vozes, sussurrando. Muitas
direções, muitas palavras para a neve. As palavras se esfregam
contra minha pele como o vento, palavras empilhadas sobre minha
cabeça como pedras. Cada som traz uma notícia. Canções
vêm até mim em sonhos. Pássaros falam enquanto voam
sobre mim. Tudo fala. Nós vivemos uma conversa
interrompida de vida e luz, luz
filtrada através das rochas, através da névoa,
gelo brilhante, pelos quentes, pele quente.
Às vezes eu escuto vozes, eu sonho.
Às vezes eu não sei se sou rena ou
baleia, homem ou mulher, às vezes eu não
sei mas eu sou a coisa toda, oceano,
árvores e céu – eu
desci como um corvo e dancei sobre a terra.
Esqueço muito. Canções que conheci tão bem.
Eu as esqueço. No meu tempo tudo era canção
e histórias. Você entrava em uma casa e alguém
cantava uma canção, e depois outra pessoa cantava.
Todo tipo de canção. Todas canções contavam
histórias, boas canções sobre tempestades, mulheres,
assassinatos em navios, tempos difíceis. Havia sempre
uma canção para os tempos difíceis. Isso era tudo
o que havia para passar o tempo. Você cantava uma
atrás da outra, e o que você não sabia,
você inventava. Eu nunca foi bom naquilo, mas
os velhos costumavam saber algumas canções...
“You may think I’m goofy
but the man in the moon is a Newfy.
He’s sailing home to glory
in a great big silver dory.”
Nós pescávamos em um barco dóri naquela época. Tudo era
dóris e redes, iscas e linhas de mão. Nós não tínhamos
motores ainda. O vento....
Eu gosto de me sentar nos degraus, sentir o vento,
ver os pássaros, cheirar o oceano. Eu não gosto
quando estou dentro. Eu não me sinto conectado
a nada. Eu sinto que estou perdendo algo,
que algo está acontecendo, sem mim.

Beth acabou de pintar os degraus de azul. Eu gosto de
sentar lá fora, escutar e esperar. Eu gosto de sentir
que sou parte de algo.
Não é solitário quando chove, água na floresta,
Não é triste.
Meus braços estão cansados de peixes, redes e remos,
meus ombros doem, meus quadris, minhas mãos cansadas
de água gelada, corda, os movimentos da faca,
meus olhos estão cansados da água brilhante, do gelo,
ver as linhas descendo, encarar a neve, eu quero
ser coberto por água. Eu quero afogar em meu
sono, a luz desaparecendo, acima, pássaros
mergulhando, na escuridão, eu quero afogar
em meu sono.
Você quebra a superfície, quebra a superfície e
cai em algum novo tipo de luz.
Noite passada a lua nasceu vermelha.
Os cachorros estão latindo.
No crepúsculo o céu estava cheio de pássaros.
Eu fiquei pensando sobre
todos os lugares onde nunca estive.